Há sempre um cão

Há sempre um cão
Que ladra ao peito
Clamando punição
com duas gotas de adoçante.

Uns velhos pássaros
Nutrindo pela entranha
que ergue a voz à manhã

Feras indizíveis
com mil fuzis mirados na porta
que à força negam e negam e negam
incessantemente aos berros nas paredes
do que nunca poderiam aceitar
na mesa e nos palcos
que o além do humano
é a vergonha de ser inesgotavelmente humano
 

 

Advertisements

Luto para não ser engolido
Por uma vida que não parece a minha
E o velho pássaro azul
Que assobiava quando lia você
Arranha minhas entranhas querendo se libertar
A cochichar outras misérias
que ninguém sabe quais serão

É preciso desafogar ao papel,
Senão que afogam-se nós mesmos
Afogam-se todos os cabelos
As rachada impressões de meus dedos
Que tanto, porém nada, me identificam
Os olhos que restam ao comer-se da terra
Pela luz última de um escuro perene
E pela vida
Que se faz no desespero
E na fruição, violenta,
do descarrego.

Da luta ao mezanino

O mundo pesa às costas
De todos estes olhos estranhos que te observam, pequeno

Retrai suas origens
E aceita a alheia miséria
Que nunca foi teu desatino
Senão pela fresta do vidro
Em meio ao centro de frondosas petit-pave

Se dói na chaga
Que carrega pela culpa
Do que te contorce o passado
E te empurrou pra onde está agora

Reza pelo teu presente,
E reconhece teu reformismo
Por que sabes que o que radica
Nunca foi bom pra sua família.

W.H.

Me indigno contra o sono
Que, letárgico, impede de apreciar
a finitude que se esvai
Em volta de nós

À contragosto
Que escorre nos eixos da pele
Esta que tenta, pueril, resgatar
O que morre em todos os cintilantes
E perpétuos dizeres do tempo

Quem dera fosse o eterno retorno
O aconchego do que nunca devia passar
Dentre as vidas que valeriam a pena existir no eterno
E contudo anunciam o prelúdio
Do que vai para o limbo
E para a memória de meia dúzia de corpos vizinhos

A dor, por hora, permanece
Antecipada ao que no real
Não pode, na grande máquina, tardar
É o fim da árvore primeira
Que agora em brasa queima
a esperança da vida.

Da pólvora à folha

Namoro novo cheira a pólvora
Em que tudo se explode e se agonia
Pelas sensações que outrora julgava alheias
E flamejam, rubros, suas labaredas
A sustentar o sentir conciso
Sem raízes e sujo de barro
Tornado velhos
O fogo se consome
E alimenta
O que de baixo da terra
Alcança o sedimento profundo
De corpos movediços e indecifráveis
Até que em nada mais lhe são novos
Por que já não são
No desleixo aos numerais
Entre as confusas folhas do jardim.

Into the Wild

Atravessar o deserto do Atacama
com mil poetas, pelas cabeças, pendurados.
Nos pés queimados na areia,
pela chance de gozar,
repousando pelo aniquilamento,
das dores do labor.

Pelo fim da ilusão ácida,
dos vapores idílicos dessa instituição.
Asfixiando líquens nas
cascas espessas das minhas aparências

devorando identidades impostas,
e que nada me diziam respeito,
debatendo um corpo no ar rarefeito
com o fogo lembrando a vida nas costas.

o estômago agora revira a fome
com a agonia de ser livre